terça-feira, 13 de outubro de 2009

Jaiminho e o Capitão Planeta

Jaime é como o capitão planeta. Jaiminho é uma reunião de atributos. Ele é irreverente, elegante, possui espírito livre e bom humor. Ele é o retrato de um bonde chamado “bonde de Vila Velha” que, ao contrário do que se pode imaginar, esse bonde nunca tomou bonde na vida, sempre tomou transcol.

Mais tarde, quando os laços já haviam se firmado e nada mais os poderia soltar, o bonde tomou um caminho menos árduo, mas não menos divertido. Foi em um automóvel preto, apelidado de “pretinho”, e mais tarde em um modesto carro verde, apelidado de “fusquinha”, que muitas boas estórias aconteceram.

Esse bonde é parte Natasha, parte Aline, parte Marlon e parte Marcela. Eles completam o bonde, mas não satisfazem o Jaiminho. Jaiminho é ganancioso e precisou de agregados para completar a sua história. Foi aí que um tal de Guilherme e um tal de Rômulo entraram na história sem saber para onde estavam sendo arrastados. Jaiminho, mil e uma utilidades, homem moderno, versátil e multifacetado, resolveu agregar algumas qualidades e ser um cara tímido que leva a vida numa boa.

Devo confessar. Estou apaixonada por Jaiminho. Entendo o quão inapropriado é se apaixonar por um eu lírico coletivo. Já imaginou a confusão que isso pode dar? Ciúme, confusão, e até morte. Mas o que posso fazer? I’m in Love, folks e não é pelo Mr.Dacy ou por qualquer outro personagem apaixonável da Jane Austen. É por um personagem que transpõe a barreira da criação, que tem vida própria, respira e sua com a gente e é do povo. Prova disso é sua profissão e seu gosto musical: carteiro e Wando, respectivamente. Essa parte do Jaiminho, o gosto pelo brega, não me cativa muito. Mas, aceito esse defeito como fator formador contribuinte do Jaiminho que conhecemos e amamos. Você pode tirar Jaime da breguice, mas não pode tirar a breguice de Jaime. E é por isso que ele é piegas, inevitavelmente piegas, um piegas colorido e bonito de se ver, como o “coração” do Capitão Planeta, como a maior parte do bonde e como a vida, quando olhada por maravilhosas lentes cor-de-rosa.

O feriado

O mundo para por alguns dias como forma de nos falar “inventem mais dessas coisas que é para eu descansar”. Faz sentido já que o mundo sofre imensamente nos dias úteis, não é mesmo? Desastres, acidentes, trânsito, decisões políticas que afetam o seu percurso.

No feriado não. É dada uma trégua à seriedade e ao fazer acontecer de grandes proporções e, para substituir isso tudo, é dado lugar ao pequeno gesto, ao balançar das ondas, ao poema que se forma, como mágica, quase que sozinho.

Aqueles que tentam ao mundo acordar nesses dias de “pausa longa para o cafezinho” são os chamados infelizes, angustiados, os que necessitam que o mundo volte a funcionar para que possam resolver e solucionar tudo e todos.

Aos que no caminho da vida encontram solidão, feriado é época de se lembrarem de sua condição e sofrerem cobrança e pressão social.
Já para os classificados como felizes, se é que tal nomenclatura se sustenta, feriado é tempo de tomar ar, tomar banho, se refrescar, simplesmente respirar. É tentativa de reinício mais vigoroso e verde esperança.

Clarice Lispector dizia: “não tenho tempo para mais nada, ser feliz me consome muito”. Pois bem, para os que carregam a felicidade como parte fundamental de si mesmos, feriado é pausa para o mundo, feriado é pausa para viver intensamente a felicidade, feriado é pausa para deixar a crônica nascer.

Roberto

"Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração."


"A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?"

Carlos Drummund de Andrade


As personagens femininas são muito mais interessantes. Talvez seja porque o homem, em geral, pareça mais taciturno, mais racional e menos propenso a chiliques e ataques histéricos. E que graça tem não ter chiliques e ataques histéricos?

Refletindo sobre o assunto, resolvi me propor um desafio: criar um personagem masculino. O nome dele é Roberto. Ele ainda não possui traços físicos. Acredito que eles serão definidos pelo próprio Roberto ao longo de sua jornada, até porque acho extremamente injusto colocá-lo gordo ou magro, feio ou bonito, alto ou baixo, se nada nós sabemos dele, não é mesmo? É como nomear uma criança sem ao menos vê-la. E se ela tiver cara de Patrícia e não de Maria?

Devaneios à parte devo dizer que apesar de ainda não possuir características físicas, Roberto possui desde já o que de mais interessante há na ciência e na infância: a curiosidade sem o asco.
Para situar em torna de qual órbita Roberto gira, uso um artifício de comparação. Eu sou um produto de minha época como qualquer outro vivo, morto ou vivo-morto que anda por esse mundo. Roberto não. Ele é produto do mundo de Raimundo, de José e do samba. Ele é um homem real, no sentido mais exposto da palavra, que xinga, que luta, que chora, mas que não perde a gentileza e esse defeito de tanto amar. Além de, é claro, não perder também a honradez de malandro, que detesta assim como Vinicius de Moraes, tudo que oprime o homem, inclusive a gravata.

domingo, 13 de setembro de 2009

Rubem Braga e o tempo

Roubaram o cronômetro do cronista, meu professor me disse.
O furto foi encomendado, li no jornal.
Era seu desejo último ouvir a batida do velho relógio.
Isso quem me disse foi o próprio. Ele, o cronista.
Mas, o que teria a me dizer o homem que cometeu o crime?
Fanático, louco, colecionador, fã. Adjetivos mil não podem qualificar um homem que possui um desejo tão obscuro. Possuir o inipossuível (me perdoem o neologismo, mas é que preciso de uma nova palavra para exprimir o que seria inexprimível), a alma do autor.
Pois ao se roubar algo de alguém se deseja intimamente roubar também um pouco de sua alma.
Roubar o relógio de Rubem Braga é querer ser um pouco Rubem Braga, é querer escutar o badalar do mesmo relógio de Rubem Braga, é desejar obter um pouco de sua essência.
Seria isso possível?
Os objetos nos guardam assim?
Se assim for, desejo que me roubem os livros. Isso sognificaria que um dia fui alguém que alguém desejou saber o que escrevia nas margens do livros.
Que maravilha!
Por enquanto, me contento em me deliciar imaginando o relógio de Rubem Braga na parede de sua casa, junto com suas ideias geniais e a fazer essa crônica que é uma ode ao improviso e à verborragia.
Deveria me estender. Mas, estou sem tempo, admito. Talvez agora o relógio de Rubem Braga me fosse útil. Para alguns, atraso, disfunção, descompasso. Para mim, charme. O doce charme que o relógio de Rubem tem de marcar duas e meia e bater nove horas.
Já que sentei no divã, continuarei a confessar. Nunca fui muito boa com horários. Um bom exemplo é o tempo que tive para fazer essa crônica: uma semana.
Ah, os amantes da pontualidade que me perdoem! Mas, há qualquer coisa de deliciosa na arte de realizar nos últimos cinco minutos.
Concordo com Oscar Wilde e acredito, humildemente, que ele me roubou o seguinte dito: "sempre atrasada por princípio, pois seu princípio era que a pontualidade é ladra de tempo". Acredito que o furto, apesar de impossível já que Wilde e eu estamos separados pelo temoroso tempo, ocorreu. Ocorreu sim, pois Wilde escreveu, mas eu vivo e me dedico a experenciar o seu dito.
Condizente com minhas crenças, mesmo que chulas e tolas, despeço-me, querido leitor, atrasada que estou, ao som do tic tac do tempo. Do tempo dos sonhos, do tempo de Rubem, do tempo de Cachoeiro, do tempo que não é possível roubar.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Belo

O belo pelo belo.
Pra que te quero, belo meu?
Para te admirar simplesmente, puramente e escrever sobre ti usando as mais eloquentes palavras, deliciosas de se pronunciar.
Porque nem tudo tem que ter objetivo, claro, exposto para se ler no contrato das utilidades do mundo.
Algumas coisas foram feitas somente para serem D-E-L-I-C-I-O-S-A-S.
Como o prazer ingênuo de falar bem devagarinho, quse delirando, a palavra deliciosa assim "D-E-L-I-C-I-O-S-A".
Assino a partir de hoje um tratado a favor das inutilidades belas.
E traduzo assim, de forma simples: arte.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Eu, mulher de sete faces, filha do carbono e do amoníaco.

Psicologia de um vencido

Augusto dos Anjos

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Poema de sete faces

Carlos Durmmond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos não perguntam nada.

O homem atrás do bigode é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
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A esperança é um dom que não é dado a muitos.
A incerteza de uma alma confusa deixa perdido um coração gritante.
A pena, que custa a molhar para sua dona não se assustar com as mais novas constatações, se inspira em penas mais nobres.

As indagações palpitantes da vida vêm em um só momento.
Uma lista de prós e contras talvez resolvesse uma decisão imediata.
Mas, e as indagações mais profundas?
O que fazer com elas?
É melhor aceitar o "gauche" da vida e com ele aprender a lidar?

Ser naturalmente um monstro de escuridão e rutilância requer um certo humor negro acima do comum.
Para isso tem que se aprender a dançar no velório dos sonhos e festejar a realidade quem vem no formato de sol quadrado.

Neste tempo de incertezas, gauchismos e amoníaco, enquanto as respostas não vêm, que venham os sonhos e o sol, na forma que melhor lhe convier.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Dança-poema.

Certos poemas não necessitam de palavras.